sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A MORTE DE PENÉLOPE


Lentamente ela começou o preparo
Dos perfumes, das danças e das memórias
A cada dia, tecia sua colcha de desejos
Não mais de espera,
Nem de guerra.

Na estrada, ele sorria, falava e contava casos aos viajantes
Era seguro ir por ali ao seu lado
Grande, altivo e bondoso

Mas suas memórias criaram formas em fogo
Cresciam, harmonizavam sua face
Escondiam suas tramas
Duplicavam seu sexo e negavam a voz de seu amor

E ela dançou furiosamente
Porque havia vida demais para queimar
E a terra apenas consumia seus sonhos

terça-feira, 12 de julho de 2011

HELENA



Os poetas, anos, décadas, a mesma melodia
Mas por que não se cansam?

Acontece que não há boca tamanha
Para contar as pérolas do mar
Nem passado que possa ser sepultado
Diante dos olhos de água-esmeralda

Minha musa, feita assim,
De vacilantes acordes marítimos

Pescador, náufrago, capitão
Marujo.

Mesmo sonho de abraçar-te
Sempre longe, sempre longe

Nunca mais o conto de teus olhos
Nunca mais a cor de teus olhos

Cansa-me o passado e suas musas
Feitiço tolo, serei Ulisses.

Não me fale de suas despedidas
Não te falarei das minhas,

Seja assim, polidez
Civilização, tijolo entre nós
Brasília.

Nunca mais...
Nunca mais....

segunda-feira, 11 de julho de 2011

AMAZÔNIA


Naquele momento a multidão vibrou
Estava viva,
Cansada
Atônita
Incrédula

Atrás, pela frente, escorregando
Gastando o pouco que tinha
Mirando o ponto verde
Viva
Colorida
Relaxada
Ansiosa
Animada

Olhando, olhando e salpicando palavras
Vá,Pegue,Arraste, Jogue
Atrás, pela frente, escorregando,

Pelo céu iam as duas – rodopios-rodopios
Galopando contra o vento,
Uma de rosa, outra de preto,
Ambas em rápidos movimentos
Zaz, caía mais uma mecha de cabelo.
Zaz, rolava o aro de um óculos
Zaz, os livros rolaram pelo gramado,

Iam as duas, uma de rosa, outra de preto,
Girando com as mãos,
Zaz, riscavam os céus com seus gritos
Nem Atena, nem Perséfone.
Era carne, batalha, miragem,

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Estrada




De pouco ou nada se faz um pedaço de terra,
Mas para arar, para dar grão, braço e fogo,
É preciso vontade.

Vontade de chicote não é vontade.

De letras e quadro se faz o alfabeto
Mas para ver, lente, voz e palavra,
É preciso vontade

Vontade de castigo, não é vontade

De lua, imaginação e cadernos se faz a tese
Mas se eles usam viseiras,
E ensinam tolices,
O que exigir do aprendiz?

O poeta sempre está fora,
Vendo bolhas ao redor das bocas fechadas
Achando graça no olhar sisudo dos mestres
Perdendo-se nos verdes anos,

E sua alma toma formatos inusitados,
Podemos achá-los atrás dos guichês de bancos,
Espantá-los nos pontos de ônibus,
Espremê-los nos cargos da administração
Socorrê-los nos hospitais

Que glória teria o rapazinho tão jovem,
Já acostumado a cortejar gordos coronéis?
Que glória e talento eles têm?

Presos aos pedaços de terra, do sul mais distante
De uma terra tão quente.
Desfeitos de memória, de casos, de farpas
Levantando bandeiras vermelhas
E bolas, e passes, e máquinas
Que a nenhum poeta interessam.
 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Elegia da cidade amada




O que é preciso para o novo sol, o novo raio,
Da pedreira, castelo de areia,
Da certeza, dia parado,
Telefones cortados,
Comissões de frente sem água, sem cor e sem som,

O que é preciso para fazer do rio,
Francisco, Tejo, Paraíba,
Mais que álcool de usina
Mais que ferida e fuligem?

Da serra o mesmo riso gordo e pachorrento,
Do cerrado, gado escondido no pasto
Do litoral, casa fechada, para uso oficial
Segue José, segue Moacir, segue Luiz.
Segue Pedro, segue Sérgio e Eduardo...

Do cimento rapidamente tratado
Os buracos que explodem pela cidade,
Canhões de luz que não são parte do espetáculo, em qualquer rua...
Mandando operários pelos ares,
Rio de Janeiro, 2.1 fim de linha
Cadeira vazia,
Empresa de máscaras

segunda-feira, 20 de junho de 2011

DE CIMA SOB O FOGO




De um lado, a foto estampada do jovem doutor de taças
De outro lado, a alegria do caboclo, em seu terreiro de dança
Na mesma tarde, a barriga do comerciante, na praça lotada
E a mãe preocupada com seu pequeno filho distante

No meio de tudo,o vigilante, que com o contador, cuida do prédio
Na sala de espera, senhoras, com óculos gigantescos de ver novela

No consultório, a dona da história que entre glórias e crimes, fez fortuna
E no andar de baixo, o pasteleiro,
E logo a frente a praça, por onde passamos todos.

No alto do alto do centro da cidade, o presidente
Da comunidade científica
Artífice  de rodas mágicas e nomeações secretas

E a frente, novamente, a estrada
Dos sonhos, do desejo, dos atropelos, dos encontros
Das trombadas
Dos ganhos
Das horas de estranha agonia
Dos sábados
Das cópias de vida vivida

E se não era assim antes,
É porque não víamos
Nada se revelou.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

cartilhas



Tem algo nos escapando nesta história toda. E este escape é perigoso, tem favorecido tipos como Bolsonaro, contribui para aumento da violência. E apostar que o veto à cartilha é o mais grave, é deixar-se levar pelo impressionismo. ESta crença na educação para respeito e tolerância não mais me convence. É algo em que um teórico alemão como Habermas pode acreditar. Mas no Brasil, nas escolas do Rio de Janeiro ou de outros Estados, querem saber como isto acaba?
Lembrem da obrigatoriedade da História da África nas escolas e toda reação intolerante que tem gerado. Acirra o estigma sobre quem freqüenta, sobre o professor que banca a idéia, acirra os ânimos e gera perseguições.
É possível acreditar que nosso professor, na sua missão de segurar um Estado que não investe em educação, possa segurar os efeitos destas políticas? È possível cobrar dele que o faça? Sozinho na sala de aula?
É como deixar o aluno negro que entrou pelas cotas na UERJ, cair desmaiado de fome no corredor (o que houve de fato). e vir alguém dizer com todo o sarcasmo:
- Viu no que dá?
Se os movimentos sociais se enfraquecem, se dividem em disputas, deixam de estar com a base, deixarm de dialogar com instituições como a escola e se concentram em passar educação por cartilhas... o efeito daqui a um ano é o esquecimento, ou a gozação.
Eu trabalhei com formação de professores de todo o Brasil por dois anos: eles acreditam que a família heterossexual é a base da personalidade sadia. Diziam isto nas entrelinhas, mas diziam. Agitam-se os espíritos, muitos revelam seu grau elevado de intolerância.
A cartilha por si só, feita por especialistas, não tem o poder mágico de alterar absolutamente nada. E é perigoso não ver isto.
E entrar numa guerra contra a suspensão da cartilha é dar a bancada evangélica a oportunidade de ter espaço gratuito na mídia. Gente que nem sabia, apoiou a decisão. Portanto, mas do bradar, é preciso propor uma ação que não se resuma ao LAMENTAMOS MUITO...
De lamentos o país esta cheio: agricultores assassinados, ministros obscenos, universidades sem verba, desemprego mascarado de crescimento, esgoto que não chega com o PAC. E uma presidente que não sabe quando o ex-presidente chega a Brasília para apitar o governo.
Não sei se o conteúdo feito pelos especialistas é o melhor para as escolas. Esta concepção de que um especialista é o melhor profissional para isto não me convence. Em um treinamento da UERJ uma doutora em gênero do CLAM, disse
- Se a menina da favela quer ter 8 filhos, o corpo é dela, não devo legislar sobre isto.
É o tipo de relativismo que me assusta.