quarta-feira, 30 de junho de 2010

SENHORAS DE SENHORES

Senhoras de senhores

No mesmo quarto, outras choraram,

Antes de 1960 e depois

Dispostas sob uma lua que favorecia a percepção das tragédias

Confinamento em alguns metros

Perto da área de serviço

Um corpo negro sob um teto baixo

E eram milhares pela cidade

Que não sabiam dos sabores dos queijos

Sabiam do peso dos cavalos

E demais animais de seu mundo reduzido.

Subindo pelas escadas dia após dia,

Cumprimentavam homens e crianças

Que obrigações eram estas,

Que as traziam apenas as névoas do dia?

Que diziam nas salas, senhores inflamados de aguardente?

Que sorte era aquela

Senhores de escravos

Senhoras de senhores

Escravas de apartamento

De senhores

E milhões de dias depois,

Esposas de senhores

No mesmo quarto onde outras choraram.

Mesmo a lua repete seus avisos,

Não há quem possa desconhecer as tragédias.

terça-feira, 29 de junho de 2010

DIALÉTICA DA FAMÍLIA


Lendo dois textos deste livro e especilamente o caso de uma menina esquizofrência é impossível não fazer comparações com nossa família, nossa socialização e nossos conflitos e momentos decisivos. Filha de pais muito jovens, creio que introjetei com intensidade os valores transmitidos. Não escrevo isto de forma gratuíta para falar de ética e bons costumes. Ao envelhecer percebo initidamente meus gestos. E as vezes balanço os braços na velocidade exata em que meu pai também o faz. Sei que olho o espaço da casa como faria minha mãe e por vezes, este é mesmo um conflito (comum as mulheres de minha geração). A separação entre família normal e patológica me fez lembrar de uma família de classe média com a qual convivi por anos. Diria que da pré-adolescência até a fase adulta. Vivi aceita como uma espécie de "afilhada engraçada" para as meninas, eram 3 irmãs. A família, bastante estabilizada economicamente, tinha exatamente esta figura do pai: um engenheiro, de uma multinacional italiana, provedor. Uma casa com uma grande geladeira, sempre cheia, televisões, telefones, carros, aquários, espaços muito amplos, limpos, iluminados, casa na praia. O interessante é que havia algum ruído na interação entre os membors da família. Ressentimentos e críticas latentes, uma mãe que passava as tardes tomando água tônica, comendo batatas chips e ao telefone. Filhas bem encaminhadas e um pai visivelmente saturado por contas, insatisfações e problemas no almoço de domingo (um dos pratos inesquecíveis de domingo: macarrão com frango, milho e ovos). Os anos passaram com intensificação das contradições. Em um dos fatos marcantes, fui cúmplice em uma mentira: uma das filhas teria um encontro íntimo com seu primeiro namorado. Tudo foi descoberto e a família (incluindo tios, avós, sobrinhos, etc...) desnudou a filha que perdera a moral de confiável. Havia comparação entre as filhas. Uma bebia demais, uma era correta, a mais jovem era artista e tinha mais liberdade para ser singular. Mas não havendo casamento, não havia bençâo dos pais. Assim, uma família pode aceitar que sua filha se case com um indivíduo que conta piadas homofóbicas e tem como projeto de vida, levar 10 anos para terminar uma faculdade. Sonho dos meninos de 40 anos? Fórmula 1. Realização? kart todo sábado. Não importa que se reproduzam violências de tipos variados.
Em um dia de verão, simplesmente o pai em uma discussão desferiu um tapa (muito inesperado e nada fácil de entender) no rosto de sua filha mais velha. Estranho, crescemos em uma época onde algumas surras eram parte da "educação". Eu sabia disto. Mas nunca saiu de minha cabeça aquele caso.
Anos depois, soube por um ex-namorado de uma das meninas, que as surras existiam, que não era exatamente o que eu via.
Uma família que vivia tentando assegurar os melhores postos para suas filhas. E que poderia ver nos amigos, concorrentes em potencial ou companhias não desejáveis.
E assim pessoas se afastam, amizades acabam.
Onde está a patologia?
Mais de 7 anos depois, fiquei sabendo por um colega de faculdade que trabalhava na mesma empresa, que o provedor, admirado na família por seu posto e remuneração, era na verdade, ridicularizado pelos colegas de trabalho, chamado de tio por não modernizar seus métodos. Ou seja, um profissional medíocre, que estava no mesmo lugar durante anos.Prestes a ser demitido Mas na infância, parecia grande com posses, aquários, uma grande casa e uma moral familiar rígida.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Fusões do Brasil

  • Os Bancos Itaú e Unibanco formam agora o maior grupo financeiro do hemisfério sul. Hoje pela manhâ, em uma agência da Tijuca, Conde de Bomfim, comprovei mais uma vez a plasticidade do brasileiro. Uma improvisação de dar inveja ao técnico Dunga. Tudo fora do ar, apenas dois caixas funcionando e todos obtendo informações ali, na própria fila. Não há muito mais do que isto. Um banco fecha, outro abre, some o letreiro anterior e quem puder que se oriente para realizar suas operações. Lentidão. Estamos falando do maior grupo financeiro do hemisfério sul. Se fosse possível aplicar um critério de avaliação em relação quanto ao atendimento em comparação com outros países e bancos, em que lugar este conglomerado estaria? Perguntemos também sobre taxas, convêncios e empréstimos (todo servidor do Estado do Rio de Janeiro é obrigado a receber pelo Itaú).
    O finado Unibanco já tinha um péssimo atendimento, com seu Uniclass, Uniisto e Uniaquilo. Estas idéias estúpidas que geram 4 filas de qualificação do cliente. Golden, Golden Plus, Super Golden Plus....nem a Marselhesa dá jeito.

UMA CASA, DOIS PENSAMENTOS SOBRE MUDANÇA

O que é uma casa? Um lugar de recolhimento ou ostentação... uma informação psicanalítica fundamental? Um concreto armado de lembranças e paredes?

Uma casa é uma possibilidade de mudança.

Contradição.

Permanência

Patologia e Crença.

domingo, 23 de maio de 2010

UM EXEMPLO DE POSTURA CIENTÍFICA E POLÍTICA: FLORESTAN FERNDANDES

Em tempos sombrios, de fraudes de todo o tipo e falta de talento generalizado, é renovadora a lembrança de Florestan Fernandes. Em minha graduação por razões que desconcheço, não tive nada de sua obra, nem em sociologia, nem antropologia (e vejam que estudei raça).
Ignorância?
Tenho a a sensação de uma formação muito aquém do que é desejado para um sociólogo. Mas lembrando as limitações de meus professores que pouco produziam... o que esperar?
Por sorte não sucumbi ao horizonte limitado daquela sociologia morimbunda.

http://www.youtube.com/watch?v=BVIsapkW4RE&NR=1

sábado, 22 de maio de 2010

sobre a arte da guerra

Quais são as bases da injustiça? O quanto podemos suportar em nossas batalhas diárias? Que potência há numa revanche? Como lidamos com a decepção quando percebemos a falta de ética? Como lidamos com o poder se não nos sentimos envolvidos por sua luz fulgurante?

Eu, que já vivi tantas batalhas, fico assombrada. Mas em menos tempo, mudo a rota da ação para aceitar os golpes Por acaso, lembrei de uma cena do clássico sobre a máfia e creio que uma das razões do ´poder de Michael era sua capacidade para aceitar as perdas. Um sistema judiciário que o perseguia, um senador que o extorquia. Todo tipo de inveja e tentativa de golpe.

Algumas instituições em que trabalhamos apresentam todos estes ingredientes. Diante do coorporativismo o mérito não vale nada. Mas não faz diferença gritar por lisura. A decadência das instituições é esta mesmo: ao nomear os mais servis para os postos de poder, todos enfraquecem, a justiça foge correndo e a impotência reina soberana. As salas perdem todo significado, pois o espírito que as construiu se ausenta.

O que vale a pena em uma sala de aula é um professor. Destes que motivam os que sequer conhecem sua motiviação. Eu acredito nisto.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

UPPS

Sobre as UPPS:
As unidades de pacificação, lembram em muito, alguns projetos de segurança aplicados em outros países. Temos importado especialistas da Colômbia e até de Nova York. Minha tese ainda incipiente sobre o Rio de Janeiro, é que desde o Império, o que realmente importa não é resolvido nos lugares que usualmente são dedicados à política, como conhecemos (arenas de decisão pública, com forças em oposição).
Nas reuniões que acompanhei nas conferências de segurança pública do norte fluminense, um coronel era o representante da sociedade civil, responsável pela implantação dos gabinetes de gestão integrada de segurança. Desqualificando o discurso de pesquisadores, estava no melhor dos mundos. Sempre fico admirada de vê-los falando com tanta propriedade sobre mudança dos tempos e democracia. "Os tempos mudaram", dizem eles, agora com seus mestrados em sociologia e antropologia, quando no passado, foram braço do EStado torturador.

Nas favelas, muitos hábitos são silenciados a partir de uma noção de ordem EXTERNA. Como resposta ao clamor popular, entendo a política de Sérgio Cabral e do secretário Beltrame. Mas invadir o Borel sem um tiro?
O arranjo feito é monumental e para começar a entender (como tentativa e não certeza de sucesso) devemos enumerar: 1. interesses eleitorais em nível estadual e nacional, 2. imagem do pais no exterior- pois é preciso produzir uma percepção de que é seguro vir ao Rio em 2014 e, 3. é preciso que não se extrapole - A queda do helicóptero no Morro dos Macacos, entre outros fatos precisava de uma resposta.
Como fala Giddens, é preciso assegurar minimamente que os cidadãos possam planejar sua rotina. A UPP é uma política de estado cuja pretensão é muito superior ao que se pode executar. Mas na produção de sensação de segurança, vejam como a população escreve estar confiante com estas ações. Como o inimigo parece tão assustador, é justificado instaurar uma interdição geral nas favelas e nomear estas ações como PACIFICAÇÃO.
Como não creio na produção de paz feita pelo EStado, creio na história e seus exemplos. Em um país com uma raiz autoritária tão profunda, é compreensível que a popualação só acredite nas saídas violentas.
Mas é claro que o Rio de Janeiro torna-se daqui para frente, um laboratório para a nação brasileira. A partir da ilusão, produziremos uma mágica a ser copiada pelos resto do país.
Não será a primeira vez